Coletores de sementes ganham protagonismo na recuperação florestal da Amazônia Enquanto projetos de restauração ambiental avançam de forma progressiva no Brasil, o país ainda lidera os índices globais de perda de florestas tropicais, respondendo por quase metade do total registrado em 2024.
Coletores de sementes enfrentam o desmatamento e impulsionam a restauração ambiental no Brasil
Em um espaço reservado nos fundos de sua casa, Vera Alves da Silva Oliveira mantém cuidados rigorosos com centenas de sacos de sementes nativas. O ambiente é mantido refrigerado continuamente para garantir a conservação do material coletado manualmente na Amazônia e no Cerrado.
Vera integra um grupo de mais de 700 trabalhadores ligados à Rede de Sementes do Xingu, iniciativa que atua na recuperação de áreas degradadas em Mato Grosso, um dos principais polos do agronegócio nacional. A rede reúne agricultores familiares, moradores urbanos e comunidades indígenas que veem na coleta de sementes uma alternativa econômica e ambiental.
Nos últimos anos, a restauração florestal passou a ganhar mais espaço no país, impulsionada por organizações civis, empresas privadas e novos recursos financeiros. O Brasil assumiu o compromisso de restaurar milhões de hectares de áreas naturais até 2030, dentro das metas climáticas previstas no Acordo de Paris.
Apesar disso, os desafios seguem enormes. Dados divulgados pelo World Resources Institute apontam que 2024 registrou a maior perda global de florestas tropicais já observada, com o Brasil responsável por cerca de 42% desse total, perdendo aproximadamente 2,8 milhões de hectares, em grande parte devido a incêndios florestais. Na Amazônia, especialistas indicam que o fogo raramente surge de forma natural, estando geralmente associado à expansão agropecuária e à ocupação irregular de terras.
Moradora de Nova Xavantina, Vera relata que já encontrou áreas antes preservadas completamente destruídas. Para ela, a sensação é de impotência diante da velocidade da devastação. Ainda assim, segue trabalhando no beneficiamento das sementes, acreditando que a restauração é uma das poucas respostas possíveis à crise ambiental.
Uma alternativa ao plantio tradicional
A Rede de Sementes do Xingu promove um método conhecido como muvuca, que substitui o plantio convencional de mudas pela semeadura direta de uma mistura de sementes nativas. A técnica permite que as espécies mais adaptadas ao ambiente local se desenvolvam naturalmente, reduzindo custos e dispensando sistemas de irrigação.
Desde sua criação, em 2007 — motivada por um pedido de comunidades indígenas da bacia do Xingu para recuperar cursos d’água degradados — a rede já contribuiu para a restauração de mais de 10 mil hectares de florestas e savanas. Ainda assim, seus representantes reconhecem que o ritmo atual está longe de compensar a velocidade do desmatamento.
Restauração e clima
A recuperação de áreas naturais desempenha papel fundamental no enfrentamento das mudanças climáticas. Florestas em regeneração capturam carbono, influenciam o regime de chuvas e ajudam a reduzir temperaturas, funcionando como um amortecedor climático. No entanto, estudos mostram que áreas em recuperação frequentemente são destruídas antes de atingirem maturidade ecológica.
Levantamentos recentes indicam que, embora a área restaurada com intervenção humana tenha crescido significativamente nos últimos anos, ela ainda representa uma fração pequena do território nacional. A regeneração natural ocupa áreas muito maiores, mas carece de proteção e políticas públicas eficazes.
Incentivos e transformação social
Especialistas defendem que transformar a restauração ambiental em uma atividade economicamente competitiva é essencial para reduzir os incentivos ao desmatamento. Atualmente, a capacidade de coleta de sementes no Brasil supera a demanda existente, o que limita a expansão do setor.
Mesmo assim, para pessoas como Vera, a coleta de sementes já trouxe mudanças concretas. A renda obtida permitiu melhorias na qualidade de vida de sua família e ofereceu um novo sentido ao trabalho. Além do aspecto financeiro, o contato constante com a natureza contribuiu para sua saúde emocional.
Para os coletores, restaurar não é apenas plantar árvores, mas reconstruir vínculos com a terra e criar caminhos sustentáveis em meio a um cenário de pressões ambientais crescentes.








